terça-feira, 21 de novembro de 2017

Córdoba a cidade dos Califas

Córdoba foi o destino final de uma viagem de carro pelos “Pueblos Blancos” da Andaluzia. Desta vez não existia um roteiro e optámos por ir descobrindo a cidade. Uma boa decisão. Pela primeira vez, também, decidimos aderir a um Tour a pé pela cidade, daqueles gratuitos (embora, no final sempre se dê uma gratificação) conduzidos por guias certificados https://owaytours.com

Muitas cidades europeias já oferecem este tipo de visitas e pela experiência em Córdoba, acho que vale a pena. A nossa guia, Lídia, uma andaluza de gema, soube estar à altura do desafio. Com um imenso talento e conhecimento soube contar as estórias da história da cidade de tal forma que quem a ouvia vivia os acontecimentos como se lá estivesse. (Já fui guia turística e sei o quanto se tem de percorrer para se atingir este patamar, por isso, nota máxima à Lídia!).

Assim, com as histórias do passado visitámos a Córdoba do presente e vimos como a cidade evoluiu ao longo dos séculos, assimilando as diferentes culturas dos muitos povos que por lá passaram e deixaram a sua marca.



A sua história começou verdadeiramente no século II a.C. com as invasões romanas.

Córdoba foi Corduba pelas mãos do general romano Claudio Marcelo e chegou a ser a capital da La Hispania Ulterior. Devido à sua privilegiada situação geográfica tornou-se um importante porto comercial e porta de entrada para a Andaluzia. Durante o domínio romano a cidade viveu tempos de riqueza e monumentalidade com a construção de grandes edifícios e templos. A cidade ostenta inúmeras lembranças não deixando cair no esquecimento as suas grandes figuras como o filósofo romano Séneca nascido na cidade no século IV a.C.



No século V Corduba perdeu o seu estatuto de capital para Hispalis (Sevilha). O império romano estava a desagregar-se, viviam-se épocas de guerras e instabilidade com as invasões dos visigodos e o cristianismo expandia-se por toda a Europa. Durante quase dois séculos a cidade viveu um período de estagnação económica e cultural.



No século VIII Córdoba é tomada pelos mouros, uma invasão quase consentida sob o pacto de os novos ocupantes da cidade respeitarem o modo de vida e a religião dos habitantes. 

Foi breve a convivência religiosa e 5 anos mais tarde Córdoba foi convertida em capital de Al-Andalus (Andaluzia) sob as ordens do Califado Omeya, de Damasco que nomeou Abderramán I, um principe Omeya, como o primeiro emir independente de Córdoba.


As rivalidades entre as várias dinastias árabes e a constante luta pelo poder levaram a conflitos, alguns deles bastante sangrentos, como aquele que, em 750, opôs as famílias Omeya, de Damasco e os Abasida de Bagdad e que resultou na morte de toda a família Omeya. Abderramán I, o Emir, escapou, contudo, à morte e conseguiu fugir para o deserto, tendo regressado seis anos depois para conquistar a sua cidade aos Abasidas. Venceu a derradeira batalha e proclamou a independência militar e administrativa da cidade, ficando, no entanto sob o domínio religioso de Bagdad.

O seu sucessor Abderramán II fomentou uma política de unificação do emirato, intolerante com os moçárabes (cristãos que viviam em território muçulmano) e muladies (visigodos e cristãos que se convertiam ao islamismo) com o objetivo de uma islamização total da península hispânica. Esta política agressiva com o povo levou as revoltas internas que fragilizavam o Emirato, o que permitiu que, a norte, os reinos cristãos se organizassem e dessem início à Reconquista do território.



O terceiro Abderramán chegou ao trono em 912 e como forma de restaurar, novamente, a glória do emirato e acabar de vez com as revoltas decidiu declarar a independencia da cidade e instaurar o Califado Omeya de Córdoba.

A verdade é que a cidade estará sempre ligada ao esplendor dos califados e terá sempre uma aura muito ao estilo das “mil e uma noites”, pois foi sob o domínio muçulmano e particularmente durante os reinados de Abderramán III e do seu filho Alhakem que Córdoba atingiu o seu máximo esplendor, sendo, nessa época, reconhecida como o mais importante centro cultural do Ocidente com uma universidade de renome, bibliotecas ricas em documentos e sumptuosos edificios. As mais de 1.600 mesquitas existentes na cidade serviam uma população de mais de um milhão de habitantes.


Córdoba viveu assim tempos áureos até surgir a próxima crise dinástica que sucedeu em 976 quando o Califa al-Hakam II morreu deixando o seu filho ainda criança como seu sucessor. Um dos conselheiros do estado, Muhammad ibn Abi Aamir, conhecido como Almanzor,  um estudante de leis e literatura, aproveitou o vazio de poder existente e ganhou influência junto do jovem herdeiro. Eliminando todos os seus supostos rivais dois anos bastaram para Almanzor ser nomeado para um cargo semelhante ao de Vizir. Nos anos que se seguiram Alamanzor conseguiu o poder absoluto, usurpando o lugar do herdeiro que não era mais que um fantoche, um prisioneiro no seu próprio palácio.

Mas Almanzor não conseguiu evitar conflitos internos e a rutura aconteceu em 1013 quando o califado foi desagregado e dividido em taifas, pequenos reinos independentes e Córdoba passou a fazer parte da Taifa de Sevilha.



A decadência e instabilidade política não impediram, no entanto, que surgissem nesta época grandes nomes ligados à poesía, filosofía e medicina, como o poeta Aben Hazam, o filósofo mulçumano Averroës e o médico judeu Maimonides. Mas os homens sábios não foram suficentes para travar as armas e quando em 1236 o exército cristão de Fernando III o Santo entrou em Córdoba encontrou uma cidade em ruínas. Salvo a grande mesquita todos os sumptuosos edificios do tempo do califado já não existiam. Começava uma outra era. A população muçulmana foi expulsa, a mesquita convertida numa catedral e construiram-se igrejas por toda a cidade, as chamadas igrejas Fernandinas.






O século XIV foi duro para os cordobeses. Duas epidemias de peste negra e uma guerra civil dizimaram grande parte da população. Córdoba viveu anos mergulhada numa grave crise social e económica.

O século XV trouxe esperança para a cidade com a chegada dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, que fizeram da antiga fortaleza Alcázar a sua residencia oficial. Mas foi uma esperança vã. A perseguição e expulsão da comunidade judía da cidade e do territorio cristão e a feroz supervisão da Inquisição deram o golpe final numa cidade já tão debilitada.

Os monarcas seguintes tentaram restabelecer a importancia de Córdoba com a construção de edificios imponentes mas a total decadência que se vivía nas cortes constituia um grande entrave ao seu desenvolvimento.

A cidade estagnou no tempo. No século XIX, após sofrer com as invasões francesas e com as lutas Carlistas, Córdoba tornou-se uma “cidade apática, triste e suja”, como a descreviam os viajantes da época.

O historiador Manuel Garcia Parody, autor do livro “Nuevos Paseos por Córdoba” defende, numa entrevista,…. que o atraso económico da cidade a beneficiou e que o facto de “ninguém se interessar” a resguardou da imposição feroz do desenvolvimento urbano conseguindo, assim, manter uma boa parte do seu centro histórico muito bem conservado.



Manuel Garcia Parody acrescenta ainda que há algo comum entre a Córdoba de hoje e a Córdoba do passado, algo que, por muito que mudem as coisas, não se pode alterar. O seu espírito, a sua maneira de ser, os seus traços de identidade, resultado da fusão de varias culturas e que lhe dão uma personalidade muito própria.


E assim é a cidade de Córdoba. Por isso, vale a pena dar uma volta pela cidade e ficar a conhecer os locais que marcaram a história de um reino que um dia foi das arábias.

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