domingo, 3 de julho de 2016

Toledo a cidade dos três credos

A minha primeira imagem de Toledo foi há muitos atrás quando, numa viagem de carro, passei ao largo da cidade. Era madrugada e os primeiros raios de sol a incidirem nas muralhas e nas casas fizeram com que a cidade parecesse nascer naquele momento rodeada de uma aura dourada. 

Voltei a Toledo há pouco tempo e, confesso, com expectativas muito elevadas.

À chegada optámos pelo menor esforço e subimos pelas escadas rolantes que nos levam, rapidamente do parque de estacionamento para o centro da cidade, ou seja, diretamente, para o turismo de massa que invadiu Toledo. 



Por isso, se é daqueles para quem a primeira impressão é que vale sugiro que dê outra volta e entre na cidade por uma das portas históricas da muralha…….o choque não será tão grande.

Porta do Sol. Construída no século XIII pelos cavaleiros da Ordem de Malta é uma das entradas na cidade velha. No arco um medalhão em relevo tem a imagem do Santo Idelfonso, patrono de Toledo.  




Um pouco antes das "escadas rolantes" o que resta do velho convento dominicano de San Pablo Granadal construído no século XIII.



O que Toledo esconde? Ou não… porque tudo está ainda muito visível e é uma verdadeira descoberta percorrer as ruas e ver que os povos que por aqui passaram, celtiberos, visigodos, romanos, judeus, árabes, cristãos, todos eles deixaram marcas indeléveis nesta cidade em cujas pedras “a história ficou gravada a fogo”. 

Uma muralha rodeia todo o centro histórico de Toledo. As várias portas da cidade estão muito bem preservadas e se tiver tempo e paciência valerá a pena entrar em Toledo por cada uma delas.



Em Toledo encontram-se vestígios de um povoado da idade do bronze, ruínas de um império romano em ascensão e testemunhos da importância civil e religiosa que a então capital da Hispânia visigótica adquiriu desde 500 d.c. até ao século VIII, altura da conquista moura da península ibérica. 





Apesar de não haver uma divisão muito clara de bairros ainda hoje se percebe que existiam zonas marcadamente cristãs, judaicas ou árabes cuja influência foi variando ao longo dos séculos consoante quem governava a cidade.






Os árabes deram-lhe o nome de Tulaytula e a cidade dependia do Califado de Córdoba. Tulaytula viveu por esses anos tempos muito conturbados. Com uma população maioritariamente moçárabe as sublevações eram constantes o que causava grandes problemas ao Emir Alhakén. Reza a história que para conseguir dominar os revoltosos o Emir convidou os habitantes da cidade e os camponeses para um banquete dentro das muralhas. Quando os convidados chegaram foram vítimas de uma emboscada já planeada e 5.000 pessoas foram decapitadas. Os seus corpos foram atirados a um poço. Este dia ficou conhecido como o dia do Poço.

Nos anos que se seguiram a submissão ao reino muçulmano foi total e a cidade registou grande desenvolvimento cultural, religioso e urbanístico. Em Toledo viviam, na altura, grandes figuras ligadas à história, medicina, matemática e astronomia dos quais se destaca Abu Isaac Ibrahim, autor das chamadas Tàbuas Toledanas, que fixavam o meridiano em Toledo. A cidade contava na época com mais de uma dezena de mesquitas, e algumas igrejas e sinagogas. As comunidades cristãs e judias não renegaram os seus credos, no entanto, adotaram o modo de vida árabe. 

Toda a estrutura urbana da cidade é árabe com as suas ruas estreitas e sinuosas, as casas com telhados quase a tocarem uns nos outros e as janelas que nunca estão frente a frente.






Em 1085 Afonso VI reconquistou a cidade e durante um breve período Toledo foi conhecida pela cidade das três culturas e cidade da tolerância, onde os três credos Cristão, Judaico e Islâmico coexistiram (quase) pacificamente.


No século XIII, sob o reinado de Afonso X, o Sábio, foi criada uma Escola de Tradutores que traduzia escritos para toda a Europa, tornando Toledo num grande e importante centro cultural.

Por volta do século XIV a paz começou a desintegrar-se com a atuação da Inquisição e as suas medidas de purificação de sangue. Os não cristãos começaram a ser perseguidos e nos anos que antecederam a expulsão dos judeus dos territórios espanhois realizaram-se em Toledo 25 autos-de-fé.

Toledo foi consagrada capital de Espanha pelos Reis Católicos mas um século mais tarde por decisão de Felipe II a escolha recaiu sobre Madrid. Após anos de debilidade económica, social e política Toledo reergueu-se após a Guerra Civil Espanhola e atualmente é a capital da província de Castilha-La-Mancha e foi declarada Cidade Património da Humanidade. 

Por terras de Castilha-La-Mancha andou o cavaleiro Don Quixote de La Mancha, nas suas viagens imaginárias, a combater moinhos de vento e a dar formas às nuvens. Em Toledo, Cervantes inspirou-se para criar esta figura que se tornou um ícone da literatura mundial. 


Se houver tempo sugere-se uma visita a Consuegro, uma pequena cidade a cerca de 60 Km a sul de Toledo para ver de perto os moinhos, objeto da fúria de Don Quixote, que neles projetava o que de mal havia no mundo. Com a sua Dulcineia de Toboso, a sua eterna amada no coração, o corajoso cavaleiro andante, de arma em riste, cavalgava contra estes “gigantes”.

- Que gigantes? - Inquiriu Sancho Pança.

- Aqueles que vês ali, com grandes braços - respondeu-lhe o amo; - alguns há que os têm de quase duas léguas. 

Com certeza não eram gigantes que o cavaleiro da triste figura mostrava ao seu fiel escudeiro Sancho Pança, eram moinhos de vento! (…)”.



Em Toledo podemos optar por percorrer ao acaso as ruelas históricas, o que não deixa de ser interessante pela descoberta constante, ou então, optamos por arranjar um Mapa da cidade – no posto de turismo que fica na Praça Zocovoder. Aconselho o mapa e a partir daí escolha o seu percurso e consoante o tempo escolha o que quer ver... mas não perca...



Praça Zocovoder, a praça central de Toledo.O nome vem do árabe sūqad-dawābb que significa mercado de animais de carga. Agora é um outro tipo de mercado...  de cafés, lojas e hotéis. 



O Alcazar vê-se de todo o lado. Este palácio fortificado foi construído na colina mais alta da cidade e ao longo da história teve propósitos defensivos. Com os romanos foi tribunal e serviu de prisão. Foi uma Academia militar e Palácio Real sem rei a lá viver. Atualmente álberga o Museu Militar e a Biblioteca de Castilla La Mancha.



As ruas longe das multidões.



O templo visigótico que foi uma mesquita e por fim, um templo cristão consagrado a Santa Maria. A Catedral de Toledo é uma monumental construção em estilo gótico clássico. Começou a ser construída em 1226 e é uma das igrejas mais bonitas e imponentes de Espanha e a sua visita é uma verdadeira aula de história de arte. 




No interior da Catedral as obras do pintor El Greco testemunham a importância da singularidade da sua arte que não se enquadrava em nenhum dos estilos da época. Para os interessados existe em Toledo o Museu del Greco que oferece uma perspetiva bem interessante da vida e percurso artístico do grego que se mudou para Toledo e que aqui acabou por morrer aos 72 anos de idade.

Vista e plano da cidade de Toledo - El Greco


Mosteiro de San Juan de los Reyes construído para abrigar os túmulos dos Reis católicos perdeu para a Catedral de Granada. Mas mesmo sem os túmulos reais vale uma visita.


A Sinagoga del Transito construída no século XIV como sinagoga, foi convertida numa igreja após a expulsão dos judeus de Espanha. É monumento nacional desde o século XIX e alberga o Museu Sefardita.



O seu interior está muito bem conservado e na nave principal salienta-se o seu magnifíco teto de madeira com paineis trabalhados em estilo Mudéjar e a Galeria das Mulheres, assim chamada por ser o local de onde a mulheres assistiam às cerimónias religiosas.



Chegaram a existir 10 mesquitas em Toledo. Ficou a Mesquita Cristo de la Luz para contar a sua parte da história. Um pouco acima para quem entra pela Porta de Bisagra Nueva (a que tem duas torres) entramos num local que durante séculos, à vez, foi uma mesquita e uma igreja (o nome é, aliás, bastante elucidativo).


O seu interior testemunha os credos ali seguidos.

De realçar as pinturas murais que mostram bem a sua antiguidade e as suas belíssimas colunas que sustentam a nave principal.





Em frente à Mesquita um paralelipipedo branco destoa dos restantes. Reza a lenda que foi aqui neste sitío que o cavalo do Rei Afonso VI se ajoelhou em sinal de adoração e se recusou a continuar caminho. Vendo isso como um sinal divino o rei entrou na Mesquita e viu que de dentro de uma parede saia uma luz. O monarca ordenou que escavassem a parede e atrás da pedra encontraram um crucifixo e uma lamparina acesa. Visto como um milagre foi celebrada uma missa nesse local e para lembrar o acontecido o rei gravou o seu escudo. No Museu de Santa Cruz encontram-se um crucifixo e um escudo que, dizem, são os mesmos da história.


Apesar do trânsito e das multidões Toledo ainda se sabe defender e para quem estiver interessado tem muito que contar.

2 comentários:

  1. Nunca fui a Toledo mas adorava, é lindíssima! O teu post é super completo e demonstra não apenas a beleza da cidade como a sua fantástica história! Não fazia ideia de que havia uma imagem do Dom Quixote lá, é um máximo. E também não sabia que a cidade tinha sido alvo de tantas influências religiosas e de forma tão marcada. 10 mesquitas é qualquer coisa! Enfim, a cidade é lindíssima, parece que ficou parada na Idade Média. Planeio um dia fazer uma roadtrip por Espanha e conto passar por lá :)

    Aonde (não) estou

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  2. Faz isso Ana. Toledo é única. Não percas o Museu El Greco e o Museu Sefardita e como eu costumo dizer....perde-te nas ruas!!!

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