domingo, 10 de abril de 2016

Semana Santa em Sevilha - El Nazareno

Diz-se que a Andaluzia é a região de Espanha mais espanhola. 
Talvez seja por isso que a sua capital, Sevilha, se mostra uma cidade tão intensa e marcante.

A prova está no que nos é dado a ver durante as suas duas grandes festas populares onde a identidade espanhola se concretiza num grande e vistoso espetáculo.

A Feria de Abril, o rosto profano de um povo que se manifesta através da música e da dança no mais puro flamengo e nas touradas que, apesar das polémicas, continuam a ser a pedra basilar de uma tradição secular e a...

Semana Santa, onde o fervor religioso se apresenta no seu rico e maior esplendor.


As festividades da Semana Santa começam no domingo de Ramos e terminam no domingo da Ressureição. Durante estes dias celebram-se a paixão e a morte de Cristo com a saída de inúmeras procissões que percorrem nas ruas das cidades a Via-Sacra.


A Via Sacra em imagens num edifício junto à Catedral.


A tradição das procissões que remonta aos tempos dos romanos, quando os crentes transportavam figuras dos seus deuses em plataformas ornamentadas como forma de demonstração de fé, foi seguida pelos primeiros cristãos e adaptada ao seu credo.

As procissões passaram a ser uma forma da Igreja dar a conhecer ao povo, que não sabia ler, a história da Paixão de Cristo através da composição de quadros vivos. Uma encenação de passagens bíblicas que, com o passar dos tempos, se tornou numa das maiores e mais impressionantes celebrações religiosas.

Em toda a Andaluzia se celebra a Semana Santa e a festa de Valhadolid está inclusive, candidata a Património Imaterial da Unesco. Mas são as festividades de Sevilha que acabam por impor um cunho muito especial a estas celebrações pela grandiosidade do seu espetáculo.

Esta tradição em Sevilha remonta aos séculos XIII e XIV com o aparecimento dos grémios ou confrarias de penitência (irmandades religiosas que faziam penitência durante a Semana Santa). Ao longo dos séculos estas associações consolidaram-se pela sua importância religiosa social e política passando a ser parte integrante da vida da cidade. Durante a Guerra Civil Espanhola esta tradição foi vítima de perseguição e muitas imagens foram queimadas mas o que poderia ter sido um diminuir da fé serviu como um impulso. As antigas confrarias renasceram e cresceram em número de irmãos e outras confrarias foram criadas. 


Hoje existem 60 confrarias em Sevilha. A mais antiga, El Silencio, tem mais de 650 anos. 

Todas as confrarias se preparam com muita antecedência para o grande desfile, ou La Recogia, pela cidade. O desfile começa e termina na igreja dos próprios bairros e o seu ponto alto é a passagem pela Catedral.


Horas e horas de espera. Lugares cativos em frente da Catedral, pagos quase a peso de ouro, para se assistir à passagem das procissões.


Cada confraria representa uma paróquia e todas elas se distinguem uma das outras: 

Pelas cores da túnica;
Pela iconografia – imagens presentes nos andores;
Pelo número de andores ou Pasos – podem ser 1,2 ou 3;
Pelo peso dos andores que pode chegar aos 2.000Kg.
Pelo número de participantes – que pode ir além dos 2.000;
Pelo tipo de música que acompanha a procissão – Banda, tambores, instrumentos de sopro, ou apenas um clarinete e oboé…


A Recogia pode demorar 10 horas a completar. O percurso de penitência das confrarias está devidamente regulamentado em trajeto e horários. O programa das festas – Carrera Oficial - determina em que dia e a que horas se realizam as procissões das várias confrarias. 

A primeira procissão a sair é a da confraria de La Borrequita, no domingo de Ramos e a última a da confraria de La Ressureccíon, no domingo de Páscoa. 

A noite de 5ª feira para 6ª feira é o momento mais especial da semana chamado de La Madrugá. Durante a madrugada saem à rua 6 confrarias, El Silêncio é a primeira. 120 homens vestidos de guardas pretorianos de Pôncio Pilatos formam um exército que percorre as ruas durante o desfile das procissões. Um espetáculo único e complexo que até tem direito à publicação de um "guia de sobrevivência" para quem quer assistir à La Madrugá.


Passear por Sevilha nestes dias é sentir o cheiro de cera derretida no ar, um prenúncio de que algo importante está por acontecer. 


Senhoras sevilhanas vestidas de preto e mantilha seguem a tradição de usar luto carregado na 5ª e na 6ª feira Santa. 



Dia 24 de março, 6ª feira Santa, às 16h30, conforme agendado, tem início a primeira procissão da tarde. 

La Carreteria, o grémio dos antigos tanoeiros, mantém ainda o estilo das irmandades do século XIX. 



O estandarte - El Bacalao -  com o símbolo e as cores da irmandade.


O Senador porta um estandarte bordado com as letras SPQR - Senatus Populusque Romanus (o senado e o povo de Roma) símbolo inspirado no estandarte utilizado pelo exército romano que se chamava Signum.


Um dos irmão carrega o Livro das Regras que contém os estatutos, deveres e obrigações da Confraria.


La Carreteria é uma das irmandades mais pequena. São apenas 400 Nazarenos ou Penitentes, os irmãos que acompanham a procissão com um hábito de penitência (túnica) e de cara tapada. Em termos de comparação a confraria El Grand Poder tem 2.600 Nazarenos.


Os penitentes transportam a cruz ao contrário tal como Jesus Cristo.


O primeiro andor a sair é feito de madeira escura esculpida em estilo neobarroco. Representa o mistério da morte e cruxificação de Cristo. 



São 48 os Costalleros, homens que, de olhos vendados, carregam a pesada estrutura de madeira. Cada Costallero tem de suportar cerca de 40 Kg. Cerca de 1920 Kg pesa esta andor.


Um Costallero a aguardar a sua vez para render um dos seus irmãos. A proteção lombar acaba por não ser suficiente para o peso que os homens têm de carregar e, por vezes, as lesões são sérias.


O segundo andor é da Virgem da Luz. A imagem de Nossa Senhora tem uma coroa de prata e ostenta um pesado manto bordado. Toda a estrutura está coberta de folha de prata. Mais leve, são 36, os Costalleros que o carregam.



A Banda de La Cigarreras, uma das Bandas mais tradicionais, acompanhou a procissão.



Os meninos acólitos oferecem rebuçados e imagens de santos a quem assiste à procissão.


Crente ou não crente, com fé ou sem ela, ninguém fica indiferente a estas celebrações.


Ir a Sevilha durante a Semana Santa, onde a tradição ainda é o que era e, onde a cada ano que passa, parece que ainda mais… é complicado. O alojamento esgota rapidamente e o estacionamento na cidade torna-se uma tarefa árdua e dispendiosa. A alternativa é ficar fora da cidade e, se for de carro, optar por estacionar nos parques em redor da Ciudad Expo. O estacionamento é gratuito e o Metro está a dois passos.

9 comentários:

  1. Excelente, amiga! Senti-me lá, novamente! Beijos e obrigada! <3

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    1. Um espetáculo a assistir pelo menos uma vez...

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    2. Já tinha ouvido falar da Semana Santa em Sevilla, e já tinha visto muitas imagens e reportagens. Mas, depois de ler o que escreveste é que fiquei a perceber melhor o que era a Semana Santa. Deve ser mesmo impressionante ! E, no final, a rematar o teu conselho aos futuros viajantes.

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  2. Fui a Sevilha há uns anos atrás e assisti a algumas procissões. Obrigada por me fazeres recordar a festa. A tua dica no final é muito útil porque quem vai de carro nunca sabe o que fazer quanto ao estacionamento.

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  3. Achei que seria útil mencionar o facto do estacionamento. Tive alguma dificuldade em encontrar informação. Mas agora já sei. Sempre que for a Sevilha é lá estaciono.

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  4. Respostas
    1. Sim na verdade Sevilha é uma cidade muito interessante!

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  5. Gostei do post. Não tinha ideia que estas festas eram tão grandes. Boa sorte para você Ana.

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  6. Obrigada. Estas festividades são impressionantes. Só estando lá para ter noção da grandiosidade.

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