quarta-feira, 1 de julho de 2015

Os ventos e as marés do Mont Saint Michel.


A  expetativa era grande. A visita ao Mont Saint Michel era um dos pontos altos da viagem e, apesar de o tempo não ajudar, pois estava frio, vento e chuva (abril não é, definitivamente, o mês mais indicado para visitar esta região de França) valeu (muito) a pena.

Mas com pena, fiquei eu, pelas fotos… Pelo resultado, confirma-se que a fotógrafa não se encontrava num pico de inspiração por aí além e o nevoeiro e a chuva também não foram grandes aliados. Ficam as imagens possíveis!



Inicialmente habitado por druidas que lhe deram o nome de Monte Tombe por ser usado como jazigo funerário dos antigos celtas, este ilhéu rochoso ganhou uma aura mística que perdura até hoje. Local de interesse esotérico para os ocultistas que o consideram um Centro Cósmico de conhecimento humano na terra é, também, um objeto de estudo, inesgotável para os historiadores.

Por interesse histórico ou por simples curiosidade o Mont Saint Michel tornou-se, ao longo dos tempos, num dos monumentos mais visitados de França e ponto de romaria para centenas de pessoas que diariamente atravessam os seus portões.


Mas ao entrar na fortaleza temos de nos abstrair da multidão que enche as ruas estreitas, das lojas de souvenirs, dos cafés e restaurantes e do barulho constante em locais que deveriam ser de contemplação. Se o conseguirmos, o Mont Saint Michel não nos dececiona. Caso contrário, acredito que as expetativas poderão sair goradas.



Restaurante de Mère Poulard onde, dizem, se come a melhor omolete do mundo. Talvez seja verdade, mas não creio que valha a pena só pelo tempo que se está à espera de ser atendido. À Mère Poulard pertence, também, um dos quatro hotéis existentes dentro das muralhas. Pela experiência, talvez seja interessante lá ficar hospedado, apesar do preço elevado.




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Conta a história, que o arcanjo São Miguel terá aparecido em sonhos ao prelado do santuário que, outrora, aqui existia e a quem pediu a construção de uma igreja em sua honra. Assim foi cumprido e depressa o novo santuário dedicado a São Miguel se tornou num local de peregrinação* e num importante e poderoso centro espiritual e intelectual, cuja influência se espalhou por todo o Ocidente.

Situado estrategicamente na fronteira entre a Normandia e a Bretanha, o Monte foi cobiçado por Príncipes e Reis e durante a guerra dos cem anos tornou-se um símbolo da identidade francesa pela sua heróica resistência aos ataques das tropas inglesas.



Foram necessários quase seis séculos para transformar um rochedo granítico na espetacular obra arquitetónica que hoje podemos admirar. As grandes construções começaram durante os séculos XI e XII, quando o mosteiro viu nascer à sua volta uma pequena cidade fortificada a que se dá o nome de "bastide". 






Nos baluartes, esta enorme roda de madeira movida pela força dos prisioneiros fazia subir e descer uma corrente que puxava uma plataforma que transportava material e comida para dentro da fortaleza evitando, desta forma, a abertura dos portões e entradas indesejadas. 


No século XIII, foi construído, no topo da abadia, um conjunto gótico de seis salas ocupando dois edifícios de três andares, que ganhou o nome de "A Maravilha" devido à riqueza e complexidade da sua arquitetura.



Hoje, visitar a Abadia beneditina é percorrer o melhor dos estilos carolíngio, românico, gótico flamboyant e e clássico. 






O claustro da abadia e os seus jardins. Finalizado em 1228 a riqueza da sua decoração e a sua arquitetura única marcam o apogeu do estilo gótico normando. 





A Sala dos Hóspedes, assim chamada por ser o local de acolhimento dos peregrinos. Esta sala levava à sala de trabalho dos monges, o "Scriptorium",  local de criação dos famosos manuscritos do Mont Saint Michel, hoje preservados na Biblioteca Municipal de Avranches.


O refeitório dos monges. O desenho do chão ao estilo românico torna imponente esta sala já de si grandiosa.


Entre o céu e a terra, no ponto mais alto da igreja, o triunfo do arcanjo sobre o dragão, imagem que simboliza no cristianismo medieval a luta do bem contra o mal.




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O Mont Saint Michel é um lugar de ventos e marés. Continente na maré baixa transforma-se numa ilha durante a maré cheia, ligada a terra por uma estrada construída num nível mais alto para evitar as águas.

Palco das maiores marés da Europa, ali o mar percorre 10 km e sobe 15 metros à "velocidade de um cavalo a galope", segundo dizem os populares.




Durante a maré baixa há a possibilidade de fazer um passeio pelos prados organizado por guias experientes, seja pelo prazer de andar sobre as areias (em alguns locais movediças) ou para observação da fauna e flora únicas da zona. Nem o espírito da aventura nos convenceu a aderir a uma caminhada de duas horas, descalços e a cada passada a enterrarmo-nos até ao joelho na areia (lodo) molhada. Escusado será, ainda, dizer que estavam cerca de 10º….



Se não se conhecer a zona, toda e qualquer aventura a solo deverá ser evitada. A presença de helicópteros de resgate na zona, durante a enchente da maré, atesta que apesar dos avisos ainda há quem se arrisque.


Ao final do dia, deixámos o Mont Saint Michel, debaixo de uma chuva miudinha, tal como quando entrámos. Talvez para a próxima haja sol!!


* Durante a idade média faziam-se as “Peregrinationes Michaelis”. Os peregrinos usavam a “pelerina”, uma capa vermelha, apoiavam-se num bordão de madeira com um nó ao centro e carregavam um alforge de couro. Eram cinco os montais ou “caminhos do paraíso” que levavam ao Monte. As oferendas a São Miguel consistiam numa concha de molusco ou em objetos de pano ou estanho a representar o Arcanjo, cozidos na roupa e que eram as “insígnias da peregrinação”

5 comentários:

  1. Foi uma pena o tempo não ter estado melhor, ainda assim acredito que tenha valido a pena. Este é um dos lugares no topo da minha lista de locais a visitar.

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    1. Irá gostar com toda a certeza. Mesmo com chuva!

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  2. Gostava muito de visitar o Mont Saint Michel, e se assim fôr possível, numa época de pouco turismo, pois um lugar desses exige mesmo contemplaçao, silêncio... Deviam começar a pensar em limitar o número de visitantes, infelizmente o desejo de gerar receitas suplanta tudo ! A primeira foto mostra mesmo essa aura de que falas !

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  3. É verdade aquele sítio é mágico.

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  4. O Mont Saint Michel sempre teve uma aura mágica para mim. Obrigada por desvendar um pouco os seus segredos. Acredite que fiquei com vontade de lá ir. Adriana Coutinho

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